28 de setembro de 2012

Lamento mas não peço desculpa

Depois dos médicos darem seis meses de vida ao meu irmão, o mundo tal como ele existia mudou. Mudou tudo.
Mudámos nós. Muda a pessoa que tanto amamos. e depois de levarmos uma chapada, murro na cabeça, pontapés na barriga, depois de termos chorado tudo e depois de termos questionado o sentido da vida, quando algo deste género acontece a uma criança de 14 anos, paramos. 
Depois de ter visto o meu sogro deixar de ter vida nos olhos. de o ver deixar fugir a vida que carregava. e de ter ouvido a terra a cair sobre ele, mudamos. para sempre.

Nestes momentos. Somos super-heróis. sim. eles existem:

Nos pais que lutam por um filho. Filhos que lutam pelos pais. Irmãos que lutam por irmãos.  homem ou mulher que luta pelo grande amor da sua vida, às vezes, uma amor de anos e anos. tantos anos que as identidades de cruzam e tornam uma só.
Seres humanos que lutam sempre por quem amam e que não desistem nunca.
E só quem percorre os corredores de um hospital como o do IPO, e vê pessoas a morrer num corredor, só quem quase perdeu alguém, só quem já perdeu e chorou alguém por causa dessa doença medonha que é o cancro, sente esta revolta que transborda todos os poros da nossa pele, ao ler: Os hospitais públicos estão a racionar medicamentos caros para o tratamento da sida, o cancro e as doenças reumáticas.

Epá...tapem os ouvidos: mas...grandes filhos da puta. Mas que merda de mundo é este, em que cada vez mais a vida humana é o raio de um cifrão, ou de uns míseros euros. 
Mas que raio de pessoas são estas.
Estamos a falar de vidas. de dor. de sofrimento. de corpo a desaparecer. de corpos a deixarem de ser quem são por perderem a identidade.
E mete nojo. mete nojo ao ponto de me passarem coisas pela cabeça que no meu estado normal nunca passariam.

Estes senhores, têm a vida facilitada em tudo. e infelizmente, até na morte.
Porque não terão que lutar por um filho, por uma mãe ou pai, um irmão, ou por alguém que amam desesperadamente, num corredor do hospital público, onde a maioria das pessoas não se pode valer por ela própria, e morre em sofrimento, e pior...sozinhas!

A mim, basta-me acreditar que há médicos que ainda acreditam na vida humana, e ainda sentem o sangue a correr-lhes nas veias e que podem fazer e querem fazer toda a diferença.
A mim, basta-me saber o que é passar por esta dor.
A mim, basta-me o orgulho de ter uns pais que nunca baixaram os braços.
A mim, basta-me acreditar que estes senhores, todos eles, terão o fim que merecem. Infelizmente não acabarão num corredor de um hospital do SNS. Acabaram provavelmente com os melhores cuidados de saúde que o dinheiro que foram roubando lhes permite ter.
A mim, basta-me acreditar, que estas pessoas, que não sente o sangue correr-lhes nas veias a bem de outros valores, carregarão na morte, a morte de todos os que sofreram e não tiveram qualquer hipótese de lutar e que não tiveram quem por eles lutassem.

E era só isto. depois de se ler noticias como estas, cospem-se palavras e sentimentos amargos. Mas lamento, não peço desculpa por isso. 
nem peço  desculpa, por terem gasto dinheiro nos tratamentos que hoje permitem ter quem amamos perto de nós, ou pelo dinheiro que fez o meu filho conhecer o avô, embora por poucos meses. Os suficientes, para ainda terem tirado umas fotografias juntos.

No fim meu senhores, o vazio é comum. Com mais ou menos dor. com melhor ou pior maca do hospital. com mais dinheiro, ou sem dinheiro. O Vazio será o mesmo.


2 comentários:

Anónimo disse...

Dassss amiga...que bonito!!!
...mas tu HOJE escreveste todas aquelas frases que estavam "entaladas" a semana toda....
ADOREI!!!
Ausenda

Patricia Pio disse...

O termo que usei é real e fisico até...cuspi palavras tal não é a raiva ao ler uma noticia destas. Sei que sabes do que falo. e infelizmente milhares de pessoas. Enfim...resta-nos acreditar que teremos um mundo melhor. Alias, se não acreditasse nunca teria tido os meus filhos!!!